Tia Sônia e o frevo que me formou
- Carlos Filho

- há 39 minutos
- 6 min de leitura
Memória, rua, fita k7, transmissão viva, costura e um show no Carnaval tia sonia frevo carnaval recife

tia sonia frevo carnaval recife
Há convites que chegam como quem bate à porta sem avisar, não para atrapalhar, mas para lembrar que a vida não pede licença quando decide acontecer. Na quarta-feira à noite, 28 de janeiro, o telefone trouxe o chamado: sábado, 31, Praça do Arsenal, Ciclo do Carnaval do Recife. Pouco tempo. Quase nenhum. E, ainda assim, tudo.
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Aceitei. Não por coragem, aceitam-se coisas por amor. No dia seguinte, a missão era outra: refazer o corpo do show, ajustar o repertório para um discurso mais clássico, aceitar a impossibilidade do ensaio e confiar no que não se ensaia, a vivência. Os músicos com quem eu já estava acertado para o período não poderiam estar. Era preciso inventar, sem inventar demais.
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À noite, fui à casa de Rafa Marques. Ali, mais do que um maestro, encontrei um amigo que me ensina música como quem ensina a respirar. Alinhamos a ideia, abrimos arquivos antigos, revisitamos arranjos clássicos, puxamos outros que já estavam escritos, esperando o dia certo de voltar ao mundo. A música, quando é verdadeira, não envelhece: amadurece.
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Listei o que eu queria artisticamente, e os nomes vieram como quem já estava à mesa antes do convite. Rafael Marques no bandolim/cavaco. Márcio Silva na bateria, que admiro desde Saracotia, Fim de Feira, desde antes, desde sempre, e que se tornou ainda mais próximo depois de compus “Entre os Fios” para o Estesia e ele fez a batera. Miguel Mendes no baixo, irmão de estrada, de criação, de conversa e de palco. Júlio César Mendes na sanfona, mestre desde menino, parceiro de estrada, herdeiro de uma linhagem de quem acompanhou Dona Chiquinha Gonzaga, foi aluno do Mestre Camarão, discípulo e conterrâneo de Dominguinhos. Guilherme Saboeira no sax, jovem, firme, vindo de uma tradição que atravessa o tempo, a tradicional Banda Saboeira (2a mais antiga da América Latina em atividade, desde 1849).
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Não haveria ensaio. Nem passagem de som. A exigência era outra: presença inteira, domínio técnico, mas, sobretudo, amor pelo frevo. Não bastava tocar bem. Era preciso saber por que tocar. Ao ligar para cada um, recebi respostas imediatas, afirmativas, generosas. Descobri, com alegria serena, que os laços que construímos vão além do fazer artístico, são laços de vida. Voltei para casa de bicicleta, sorrindo e refletindo sobre.
Marcinho, hoje morando em Limoeiro do Norte, no Ceará, pediu um instante. Queria saber se havia ônibus na sexta à noite. Havia. Veio. Atravessou quatro estados para tocar um dia e voltar no outro. Um músico de currículo vasto, ainda encantado, ainda disponível para o encontro. Isso diz muito sobre a música. E sobre as pessoas.
No sábado, antes de tudo, houve outro show. À tarde, com a Orquestra Malassombro, abrimos a “Presepada da Folia”, em seguida Sá Grama convidando nomes como Spok, Surama Ramos e Laís Senna, no Clube Catamarã, à beira do encontro entre o Capibaribe e o Atlântico. Muito calor, muita beleza. De lá, seguimos direto para a Praça do Arsenal. A cidade já vestia sua melhor pele: colorida, dançante, sorridente. É fevereiro chegando! Ganhamos algo precioso que fez muita diferença, uma hora na Sala Nelson Ferreira, no Paço do Frevo. Agradeço profundamente a Naara Santos por isso. O trajeto foi uma carona generosa de Júnior Teles, amigo e músico querido. Descemos entre a Torre Malakoff e o Cais do Sertão, eu, Rafa e Julinho, instrumentos na mão, esperando uma troça passar para atravessar a Rua do Bom Jesus. O carnaval já ensinava o ritmo do dia.
Na Sala Nelson Ferreira, a equipe foi chegando aos poucos. Júlia Assis, produtora executiva, chegou primeiro, calma, firme e competente. Ajustamos o cronograma e ela seguiu para o palco. Os músicos chegaram. Rafa me entregou uma sacola com partituras. Sentei no chão, espalhei pastas, organizei papéis. Tocamos as músicas sem a maioria dos instrumentos, com a boca, com a cabeça, com o corpo e alma. Percebi ali que cada frevo estava vivo dentro de cada um. Aquilo para mim, por si só, já era um acontecimento. Grandes músicos, referências, amigos, autoridades em suas áreas, a serviço do frevo. Independente do que viesse depois, algo já tinha sido cumprido.
No backstage, a montagem começou. Não me arrumei como planejava. Não importava tanto assim. Encontrei Normando Paes (Engenheiro de som P.A.), Ed Wave (Engenheiro de som monitor). Chegou Heitor Menezes, jovem passista, com sua mãe. Havíamos nos encontrado naquela madrugada, na feira agroecológica das Graças. Tudo se alinhava como quem não precisa de muito esforço para acontecer. Fizemos algumas fotografias com Hannah Carvalho. E subimos.

Já no palco, veio o aviso: havia um “problema”. A Praça do Arsenal têm duas rampas que cruzam o palco para a passagem dos cortejos. O bloco anterior era a Pitombeira dos Quatro Cantos. Um bloco histórico. Ainda maior naquele dia, inflamado pela recente indicação de “Agente Secreto” dirigido por Kléber Mendonça e protagonizado por Wagner Moura ao Oscar, um detalhe curioso é que fui figurante no filme, história de conto num outro momento. A direção de palco buscava uma solução. Nós não hesitamos: o bloco passaria. Pararíamos o show.

Não foi humildade. Foi entendimento. O frevo, o carnaval, existem porque os troças, blocos, caboclinhos, reisados, pastoris existem. A rua precede o palco. A passagem foi linda: clarins de ouro abrindo caminho, alas passando, estatuetas erguidas, o povo em delírio. Quando retomamos, cantei um pout-pourri de Antônio Maria. O show voltou mais pulsante, abençoado pelo cortejo.
Tudo seguia com uma força rara. O público cantava. A música dançava junto. Não havia depois, nem antes. Só o agora. Só o instante. E, então, vi minhas tias, minha irmã, minha família na frente do palco. Cantando. Dançando.
O que me trouxe a escrever tudo isso foi um vídeo que minha irmã me enviou. Nele, minha tia Sônia canta e dança. É difícil dizer o que senti. Foi ela quem deixou as fitas K7 tocando no ateliê de costura. Foi ali que ouvi frevo pela primeira vez. Primeiro, criança, brincando no corredor enquanto ela tecia. Depois, seguindo blocos em Sertânia (“Taí”, “Afaser” de dia e, à noite, ouvindo a orquestra na praça. A Orquestra Marajoara, do maestro Charuto). Pessoas que o tempo passa, e a gente entende a dimensão.
Ali estavam minhas tias Sônia e Simone, Cáca Laet, Pamella, Angélica, amigas e amigos que me levaram pela mão para brincar carnaval. E eu, agora, devolvia um pouco do tanto que recebi. Pouco. Mas verdadeiro.

Recebi algumas mensagens de pessoas surpresas sobre “posicionamento”. Sobre eu cantar frevo, de forma solo. Eu sou um artista da voz. Um cantor popular das tradições brasileiras. Forró, frevo ou qualquer outro nome que a indústria invente para vender produtos. Eu sigo cantando. Servindo ao que nos formou. O que é maior do que eu.

No fim, talvez seja isso: a vida não nos pede que expliquemos demais. Ela pede presença, verdade e entrega. E, naquele sábado, eu estive inteiro. Com a cidade. Com a música. Com minha tia Sônia dançando na frente do palco.
Isso basta.
Seja bem vindo, querido Fevereiro.
Estávamos com saudade.

Ficha técnica
Voz, concepção e direção Carlos Filho
Bandolim Rafael Marques
Bateria Márcio Silva
Baixo Miguel Mendes
Sanfona Júlio César Mendes
Sax Tenor Guilherme Saboeira
Som P.A. Normando Paes
Som Monitor Ed Wave
Produção Executiva Júlia Assis
Fotografia Hannah Carvalho
Filmaker Simon Filmes
Produção TBC Produções Artísticas
Tainá Menezes, Tombc
Agradecimentos Prefeitura e Fundação de Cultura da Cidade do Recife
REPERTÓRIO
Carlos Filho - Carnaval Recife, Praça do Arsenal, 31.01.2026
Abertura - Chamando Clarins
Vassourinhas - Joana Batista e Matias Rocha Bb
Cabelo de fogo - Maestro Nunes (instrumental) Cm
Chorando e cantando - Geraldo Azevedo Cm
Hino Batutas de São José - João Santiago Cm
Trombone de prata - Capiba Eb
FREVO DE BLOCO
Recife Frevos: n1 n2 n3 - Antônio Maria Dm Am
Último Regresso - Getúlio Cavalcanti Gm
Marcha da Folia - Raul Moraes Dm
Bloco do Cais - Nuca e Heriberto Sarmento Am
Turbilhão - Moacir Franco C
FREVO DE RUA
Pedras que cantam - Dominguinos e Fausto Nilo D
Ciranda de Maluco - Otto Gm
Nino, Pernambuquinho - Maestro Duda (instrumental) Gm
Quarta-feira ingrata - Luiz Bandeira Dm
Último dia - Levino Ferreira (instrumental) Gm
Seja bem vindo, querido Fevereiro. Estávamos com saudade.
Recife, 7 de fevereiro de 2026 Carlos Filho


























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