Forró do Sertão no Recife: três vozes e o mesmo chão.
- Carlos Filho

- 21 de jan.
- 5 min de leitura
Quando três sertões se reconhecem, não há espetáculo: há comunhão.

Neste domingo, 18 de janeiro de 2026, o Forró do Sertão não aconteceu apenas como evento. Ele se manifestou como encontro de forças antigas no Fuá do Forrobodó, quando Seu Branco recebeu a mim, Carlos Filho, e Sarah Leandro, para cantar o que não cabe só na música, o território vivido.
Ali, eu disse, e repito agora com mais tranquilidade, que naquele palco cantavam juntas a Serra do Bodopitá/PB (Agreste da Borborema), a Serra Talhada/PE (Sertão do Pajeú) e a Pedra do Claranã/PE (Bodocó, Sertão do Araripe). Não como metáfora bonita, mas como constatação física. Cada um de nós carrega no corpo uma geografia. A voz nasce onde o pé aprendeu a pisar. O canto guarda relevo, clima, silêncio, dureza e afeto. Quando três sertões se reconhecem, não há espetáculo, há comunhão.

Seu Branco carrega no canto o chão de Fagundes e Queimadas, na Paraíba. Um cantar que já atravessou estrada, trio elétrico, rádio, pandemia e retorno. Cantou no Trio Estopim, viveu o mundo e voltou. Porque, em alguns momentos, há vozes que só fazem sentido quando retornam ao chão que as pariu. A dele é dessas. Voz que não performa o sertão, é sertão em estado de presença. Daquelas que parecem cada vez mais raras, quase extintas, mas que seguem firmes, como pedra que aprende a falar.
Na minha participação, escolhi cantar como quem acende velas. Homenageei Antônio Barros, filho daquela mesma região (Queimadas, PB), cantei Assisão, trazendo o Sertão do Pajeú comigo, e entoei um aboio de minha autoria, não como performance musical, mas como gesto de pertencimento, uma loa de chegança.
Aboio não se canta, se atravessa.
Sarah, vinda do Araripe, cantava com o corpo inteiro. Até tirou os sapatos, como raramente faz, para pisar no chão direto. Há vozes que dançam antes mesmo do pé se mexer. Ela traz um sertão que aprendeu a florescer na resistência, com firmeza e doçura. Três origens distintas, um mesmo pulso, o forró como idioma comum.


Esperando Seu Branco, no camarim, conversei longamente com pessoas da dança. Camila Delphim, Silva Barros (grande baterista), Cláudio Sobral, Luciana Cavalcanti e outra que revelo em seguida. Em poucos minutos, algo comum entre sertanejos aconteceu. Descobri que uma das pessoas era de Princesa Isabel (PB), terra tão querida, com a qual tenho ligações sensíveis dos tempos de escola. Ela é Diana Frazão, que, horas depois, quando cantei um xaxado, subiu ao palco e “xaxou o chão” daquele jeito que o cangaço ensinou. Foi um instante bonito, em que nos reconhecemos em canto, dança e geografia.
Depois de muito papo, fomos exercer nosso ofício. Saí de lá alimentado e, mais uma vez, aprofundei uma certeza que venho pesquisando com o corpo, o terreiro/salão de forró é uma clínica silenciosa. Ali, ninguém pergunta o que você faz da vida. Pergunta se você dança. O abraço é permitido. O suor é aceito. A escuta é coletiva. Cada música reorganiza algo por dentro. Sem diagnóstico, sem receita, sem promessa. Apenas presença. Mas esse é um tema que sigo escrevendo e, em outro momento, trago de volta.

Houve um momento em que o tempo pareceu dobrar sobre si mesmo, um atravessamento, quando Seu Branco cantou “Saudade Matadeira”, de Dominguinhos e Anastácia. No ano passado, ao vê-lo cantar essa música no Recife, eu já havia sentido algo ali, uma emoção que não se explica, apenas se respeita. Fiquei imóvel, atrás da caixa de som, ao seu lado direito, como quem sabe que está diante de algo sagrado. Ontem, no camarim, contei isso a ele. E ele me devolveu a história, o primo, grande amigo de infância, falecido, a música preferida dele, o dia 7, o mesmo dia da morte de sua avó.
Algumas datas não passam. Ficam.
Envergonhado pedi para que ele a cantasse e recebi um olhar sereno acompanhado da resposta, “Vamo ver na hora, acho que sai”. E quando ele cantou, eu voltei para o mesmo lugar, atrás da caixa, agora do lado esquerdo do palco. O mesmo ponto de vista, dando a volta naquele instante. O mesmo silêncio atento.
Então ele me viu quieto e me chamou. Subi. Não para dividir protagonismo, mas para emprestar voz a um instante que pedia testemunha. Fiquei quietinho no fundo do palco. Cantamos juntos. E ali, a saudade não doeu, ela respirou.
No salão, músicos que amo e respeito dançavam. Salatiel d’ Camarão, filho do lendário Mestre Camarão, Itallo Costa, parceiro de composição, Felipe Costta, amigo e parceiro de música. Ninguém dançava para ser visto. Dançavam porque um fuá de forró é isso, corpo em concordância com a música. O resto é vaidade.

O Forró do Sertão que aconteceu no Fuá não foi sobre repertório. Foi sobre pertencimento. Sobre lembrar que a cultura popular não é um produto, é um organismo vivo. E que, quando bem cuidada, ela cuida da gente de volta.
Domingo, não cantamos para o público. Cantamos com o povo. E isso muda tudo.
Forró do Sertão no Recife
Ficha Técnica Fuá do Forrobodó - Forró do Sertão
Barrozo, Recife/PE [18.01.2026]
Forrobodó Recife - Realização
Gustavo Dantas - Produção Executiva
Polly Galvão - Produção Executiva
Amanda Moury - Assistência de Produção Veranice Maria - Bilheteria
Cantores e Cantora Seu Branco Carlos Filho Sarah Leandro Músicos Lucão Sanfoneiro Nino Zabumbeiro Pedrinho Pandeiro Zé Rodrigues - Triângulo
Dança Camila Delphim Cláudio Sobral Diana Frazão Dielson Pessoa Luciana Cavalcanti DJ Set Jhow Smeril Sonorização
Luciano LSom
Foto e Vídeo
Flaviana Lima































































Que texto forte!
O sertão cantou em gente.
Sem cena, sem vitrine.
Só corpo, chão e memória
se reconhecendo em voz. ❣️
Texto lindo demais!
É tão lindo ver como você se entrega em tudo que faz, e como sua sensibilidade floresce e você brilha levando junto todos que estão com você e todos que lhe assiste. Te amo e te admiro cada vez mais. Adoro seus textos e tudo que você faz.❤️👏👏👏