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Baile do Menino Deus em Recife

  • Foto do escritor: Carlos Filho
    Carlos Filho
  • 2 de jan.
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Dois atos para uma mesma esperança



Ato I - O Cortejo


Todo ano, quando Ronaldo Correia de Brito renova o convite para o Baile do Menino Deus, algo em mim volta ao começo.


Volta à primeira vez.


Àquela tarde em que ele me chamou até sua casa, no fim do dia. A mesa posta com café. A conversa mansa. E a sensação, ainda hoje muito viva, de que ele acreditava mais em mim do que eu mesmo.


É essa sensação que revisito a cada novo convite. Não como vaidade, mas como responsabilidade. Porque ser chamado, nesse contexto, é ser lembrado de quem a gente é quando canta.


No dia 14 de dezembro, o Baile saiu em cortejo pelas ruas do Recife Antigo. E ali, caminhando, compreendi com o corpo algo que já intuía: cantar não é apenas afinar a voz. É saber por quem ela fala. Que povo ela representa. Que chão sustenta cada sílaba. Fácil sentir o quanto O Baile está impregnado dessa cultura tão nossa, por vezes adormecida por um cotidiano anestesiado, importado.


Recebi de Ronaldo o convite para também assumir a função de diretor e preparador vocal desta edição, reafirmei uma convicção antiga: técnica é fundamento, mas não é destino. A voz precisa carregar valores, ancestrais, memórias coletivas. Precisa respeitar o que veio antes para não soar vazia agora.


Durante o cortejo, um pastoril seguia à minha frente. E algo se deslocou dentro de mim. Quando criança, eu via o pastoril sempre de baixo para cima, pequeno diante das pastoras, dos figurinos, das cores, do encantamento. Desta vez, olhei na mesma altura. Caminhei junto. Cantei junto.



Foi como reencontrar os brinquedos populares que me formaram enquanto gente. Não como lembrança distante, mas como presença viva, pulsando ali, no meio da rua. Dei as mãos a criança que fui quando minhas tias me levavam para assistir o Grupo de Dança “Elizabeth Freire” em Sertânia, Sertão do Moxotó.


O público estava eufórico. Alegre. As músicas do Baile escaparam do palco e ganharam as ruas, os corpos, os corações. Não havia separação nítida entre quem cantava e quem escutava. A obra era compartilhada. A cidade participava. As cantigas lavavam as calçadas.


Quando chegamos ao centro do Marco Zero, o espaço se abriu numa grande roda, como se a própria cidade tivesse decidido escutar. Cada brinquedo tomou seu tempo: Pastoril, Caboclinho, Maracatu, Reisado, Blocos Líricos, um a um, oferecendo sua forma de existir ao centro daquele círculo vivo. Em determinado momento, a cantora do Pastoril me olhou de perto e, quase sem voz, sussurrou que não lembrava o começo da música. O microfone nas mãos, o excesso de olhares, talvez o peso daquele instante. Em falsete, cantei baixo, só para ela: “Eu sou a mestra do cordão encarnado…”. Ela entrou. Cantamos juntos. A roda respondeu. Ali senti uma felicidade mansa e funda, dessas que não pedem registro, apenas permanência.


Ao sair do Marco Zero, o fim de tarde caía com a beleza exata de um verão tropical no Bairro do Recife. O céu começava a dourar quando entramos na Rua do Bom Jesus cantando “Turbilhão” (A nossa vida é um carnaval…). No trecho em que o instrumental se dissolve e ficam apenas as vozes "Lala-laiá…" algo raro aconteceu: todo mundo cantou. O coro não vinha só de quem estava no cortejo, mas das calçadas, das janelas, do chão. Os confetes reluziam no ar como pequenas luzes errantes. Guardei essa imagem com cuidado. Pendurei na parede da memória, onde ficam as coisas que a gente sabe que vai precisar revisitar.


O cortejo não anunciava apenas o espetáculo que estava por vir.



No final do cortejo, entregamos a multidão ao palco montado na Praça do Arsenal. Lá estava a Orquestra Sinfônica do Recife, imponente e acolhedora ao mesmo tempo. Fui escolhido para cantar duas músicas do Baile, sob a regência de José Renato Acioly, maestro que já ocupava aquele lugar quando entrei no Baile muitos anos atrás. Subi ao palco acompanhado por seis crianças do coro infantil e cantamos “Romã, Romã” e “Jaraguá”. Foi um momento decisivo na minha trajetória: a naturalidade com que a canção popular dialogou com o universo erudito, sem hierarquia, sem esforço. Apenas música. Apenas encontro.




Ato II - Marco Zero


No Marco Zero, o Baile retorna ao seu território conhecido. Mas nada volta igual depois que a rua atravessa a cena.


Ali, diante de milhares de pessoas, percebi com nitidez o que significa representar o Natal através dessa ópera popular. Não se trata apenas do nascimento do Menino Deus. Trata-se da possibilidade de manter a esperança acesa num Brasil possível. Um Brasil que comporta diferenças no mesmo palco, na mesma música, na mesma vida.


Houve um momento em especial que sintetizou tudo isso: a cena dos Reis. Todo o elenco em uníssono, junto à participação do grupo de break do artista Okado do Canal, cantando alto “Sou Rei”. E o público respondendo na mesma vibração, como se aquela afirmação precisasse ser dita, e ouvida, em voz alta.


Ali, senti a cidade cantar de volta.


Como solista, levei minha voz.

Como diretor vocal, levei muitas vozes comigo.

E como ser humano, levei a certeza de que nossa cultura precisa, e deve, disputar os espaços, os corações e as mentes.


O Baile do Menino Deus não é apenas um espetáculo natalino. É um gesto de permanência. Um lembrete de que nossa cultura é rica, profunda e contemporânea. E que só permanece viva quando ocupa, quando insiste, quando canta.


Quando as luzes se apagam e o silêncio volta, algo continua aceso.


Talvez seja isso o Natal.

Talvez seja isso o Baile.




FICHA TÉCNICA — BAILE DO MENINO DEUS


Concepção do Espetáculo e Direção Geral

Ronaldo Correia de Brito


Texto Original e Letras

Ronaldo Correia de Brito

Assis Lima


Música

Antônio Madureira


Direção de Produção

Carla Valença


Realização

Relicário Produções


Direção Musical

Rafael Marques


Direção Técnica

Tomás Brandão


Preparação de Elenco e Assistência de Direção

Quiercles Santana


Coreografia

Sandra Rino


Preparação do Coro Infantil

Célia Oliveira


Preparação Vocal

Carlos Filho


Cenografia

Sephora Silva


Direção de Arte

Marcondes Lima

Sephora Silva


Arranjos Musicais

Antônio Madureira

Nelson Almeida

Rafael Marques



ELENCO

Atores

Arilson Lopes — Mateus 1

Sóstenes Vidal — Mateus 2

Daniel Barros — Mateus 1

Djaelton Quirino — Mateus 2

Laís Senna — Maria

Lucas Dan — José


Participação como Santos Reis do Oriente e Manipuladores de Bonecos

Luan Lucas

Marcílio Santos

Ruan Henrique



VOZES

Solistas e Coro Adulto

Carlos Filho

Cláudio Rabeca

Elon Barbosa

Gabriela Martinez

Isadora Melo

Ricardo Pessoa

Sarah Leandro

Sue Ramos


Participações Especiais

Joyce Alane

Lucas dos Prazeres

Maestro Spok

Silvério Pessoa

Alice de Souza

Guilherme Simões

Julia Souza



MÚSICOS

Acordeon — Karol Maciel

Bandolim e Cavaco — Rafael Marques

Contrabaixo — João Pimenta

Viola — Raquel Paz

Violão e Viola Nordestina — Aristide Rosa

Percussão — Emerson Coelho, Jerimum de Olinda e José Emerson

Sopros — Alexandre Rodrigues (Copinha)

Trompete — Jonatas Gomes

Saxofone — Participação especial do Maestro Spok



CORPOS EM CENA

Coro Infantil

Ayla Kristie

Ana Kostic

Antônia Helena

Bianca Ferro

Christian Figueiredo

Eduarda Naziazeno

Elis Bandeira

Heitor Morais

Henrique Barreto

Luan Rian

Olívia Levy

Pétala Valentina

Theo Waquim


Bailarinos

Beatriz Gondra

Fernando Gomes

Gabi Carvalho

Isabela Loepert

Jonas Alves

José Valdomiro

Marcela Aragão

Marina Vidal

Pinho Fidelis

Tiago Vieira


Participação Especial

Davi Campos

Dimas Popping


Okado do Canal e PE Original Style

Bboy Akira

Bboy Eddy

Bboy Fábregas

Bboy Okado

Bboy Felipe

Bboy Chris

Bboy Tartaruga

Bboy Smaley

Bboy Torada



PRODUÇÃO

Produção Executiva

Relicário Produções

Verônica Monte

Carla Navarro


Assistência de Produção

Carlos Lira

Elias Vilar

Lúcia Ramos


Suporte de Produção

Andrea Silva

Dante Santana

Denize dos Santos

Eduardo Autran

Gilvan Desidério

Henrique Dornelas

Júnior Galdino Brow

Sonival Silva



CENOTECNIA E PALCO

Cenotécnica

Cristovam Sovage


Equipe Cenotécnica

José Cresmar

José Walter de Sena

Adriano Nascimento

Alexandre Nascimento

Samuel Pedro Batista


Estrutura Cenográfica

Engrenagem de Produção



LUZ, SOM E VÍDEO

Iluminação Cênica

Jathyles Miranda


Equipe de Iluminação

Andre Xavier

Cleones José

Natalie Revoredo

Wellington Antônio


Luz

Luminário Produções

Denilson Celestino

Anderson Torres

André Ramos

Wellington Moura

Emerson Ferreira

Raimundo Viana

Evandro Alves

Arnaldo Alvino

Abner José


Telão

Luminário Produções


Equipe Telão

Tiago Barbosa

João Lopes

Luís Lima

Gleybson Silva


Som

Estúdio Carranca

Luminário Produções


Equipe de Som

Alex Nascimento

Carlinhos Borges

Gera Vieira

Junior Evangelista

Miguel de Santana Guerra

Marcio Torres

Neto Alves

Vinícius Aquino



FIGURINO, MAQUIAGEM E ADEREÇOS

Criação de Figurino

Marcondes Lima


Criação de Adereços

Álcio Lins

Marcondes Lima

Wilson Aguiar


Assistência de Figurino

Álcio Lins

Francis de Souza


Camareira

Beta Galdino

Francis de Souza


Execução de Adereços, Bichos e Luminárias

Álcio Lins

Henrique Celibi (in memoriam)

Jonas Santana

Wilson Aguiar


Manipulação de Bichos

Luan Lucas

Marcílio Santos

Ruan Henrique


Costureiras

Francis de Souza

Georgete Barlavento

Monique Nascimento

Maria Lima

Elzamélia


Assistentes de Costura

Ana Arôcha

Isabele Baraúna

Jamilly Maria

Juliana Lisboa

Leide Souza

Luana Marina

Mariana Araújo


Criação de Maquiagem

Gera Cyber


Assistentes de Maquiagem

Aline Wally

Andrea Afonso

Andreíse Melo

Cynthia de Cássia

Julliana Melo

Joana Jéssica

Maria Caxiado

Michelle Lima

Monique Araújo



COMUNICAÇÃO E REGISTRO

Assessoria de Imprensa

Cognos Comunicação

Luiza Maia

Tiago Barbosa


Mídias Sociais

Cognos Comunicação

Emanuela da Silva

Luiza Maia

Tiago Barbosa


Identidade Visual

Davi Alfonso


Design Gráfico

Tácio Ferraz


Site

Sandro Araújo (SandroWeb)


Locução VT

Cira Ramos


Chamadas para TV e Redes Sociais

Produção — Rec Produtores

Direção — Chico Ribeiro

Montagem — Rogério Pinto

Finalização — Movimento CG

Motion Graphics — Ailton Nativo


Fotografia

Gianny Melo

Hans Manteuffel

Paulo Filizola


Direção de Transmissão Audiovisual

Tiago Rêgo


Filmagem e Transmissão Simultânea

Everton Santiago

Everton Arruda

Heverton Couto

Diego Silva

Ednaldo Tranquilino

Natalia Farias

Wilson Luiz

Roberto Veiga

Rinaldo Calado


Edição de Imagens (Especial Globo)

Wakko Nobre





ACESSIBILIDADE E SERVIÇOS

Audiodescrição

VouSer Acessibilidade

Roteiro e locução — Andreza Nóbrega e Daniele França

Consultoria AD — Milton Carvalho


Equipe de Libras

Comunicação para o Mundo – Acessibilidade

Melissa Kalu

Rafael Gonçalves

Roberto Carlos

Simone Lyra


Receptivo Acessível

Alysson Santos

Luiza Freire


Alimentação

Karina Renny e equipe


Segurança

Lucas Pitbull e equipe


Limpeza

Jacicleide Santos

Cléber de Souza

Dermeval Pereira


Coordenação de Reciclagem

Associação dos Ciclos dos Recicladores de Pernambuco

Nadja S. Lyrio


Equipe de Reciclagem

José Roberto da Silva

Rosa Ferreira




2 comentários


21fabiola
10 de jan.

Ato I

Que texto intenso. Dá reviver aquela tarde, sentir o cheiro da rua, ouvir as vozes cruzadas, ver a infância voltando pelas canções. Há uma delicadeza forte aqui — a de quem entende que cantar também é guardar o que nos formou. Fica a sensação de que o cortejo foi um reencontro conosco e com uma cidade viva, que cantou, aplaudiu e se emocionou em cada canção.

Ato II

Este texto carrega não só a memória do palco, mas a sensação da rua viva tocando a obra — e deixando tudo maior. Dá pra sentir o orgulho, a responsabilidade e o afeto pelo que se faz. Mais do que relato, é testemunho: da cultura que insiste, do público que…

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Ana Bourbon
Ana Bourbon
09 de jan.

Carlos querido, é tão bom ler seus textos e acompanhar a narrativa como se estivesse vivenciando tudo que você descreve, como se estivesse inserida neste contexto do Baile do Menino Deus, não apenas como espectadora desse espetáculo majestoso, e sim como uma participante ativa dessas expressões culturais que são exibidas. Destaco aqui a narrativa sobre a pastora, eu fui transportada para minha infância, quando dançava no pastoril, era a borboleta e torcia pelo cordão encarnado, cantei junto e visitei memórias lindas e emocionantes. É isto que o Baile representa, vida, nascimento, cultura raiz, é muito lindo, emocionante e impactante assistir todas estas manifestações culturais, neste espetáculo que permanece vivo em nós, o ano inteiro. Todos que fazem este espetáculo s…

Editado
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